segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

21 Gramas



Por Breno Ribeiro


21 gramas (21 grams, 2003), do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, conta com uma narrativa não linear que, devido a uma montagem original, torna-se um quebra-cabeças onde cada nova cena ressignifica o que foi visto anteriormente. O resultado é uma obra carregada que aborda vários temas e dá subsídios pra discussões diversas. Nesta análise vou focar no tema ‘transplante’, procurando ressaltar os efeitos subjetivos desse procedimento no personagem principal do filme.

O filme apresenta histórias paralelas que se entrecruzam em determinado momento. Assim, somos apresentados a Paul Rivers (Sean Penn), um paciente com uma grave afecção cardíaca, que espera um coração na fila de transplante. Em outra linha narrativa vemos Cristina Peck (Naomi Watts), que perde suas duas filhas e o marido, Michael, vítimas de um atropelamento. O responsável pelo acidente é Jack Jordan (Benício Del Toro), um ex-presidiário que busca a regeneração por meio da religião. Ele não presta socorro às vitimas na hora do acidente, mas acaba se entregando à polícia posteriormente. Com a notícia da morte cerebral de seu marido, Cristina consente em doar o coração dele para transplante.

Paul recebe o órgão e, a princípio, reage bem ao procedimento, retomando à sua vida normalmente. No entanto, mostra-se curioso quanto à origem daquele coração e logo descobre quem foi o doador, bem como as circunstâncias de sua morte. Então, decide aproximar-se de Cristina. Eles acabam tendo um relacionamento amoroso e o corpo de Paul começa a apresentar sintomas de rejeição ao órgão. 

Paul sente extrema culpa e dor moral pelo fato de sua vida ter sido salva em decorrência de uma tragédia. A partir daí ele começa a sofrer uma série de transformações subjetivas, que refletem tanto em seu corpo quanto em seu comportamento. Seu corpo apresenta sinais de rejeição ao órgão transplantado, mas ele recusa-se a submeter-se a um novo procedimento.


Na sociedade contemporânea, na qual os avanços da ciência possibilitam cada vez mais o adiamento da morte, o corpo passou a ser visto como máquina, ou seja, um agrupamento de peças a serem destacadas, substituídas ou consertadas. No entanto, no caso de um transplante, faz-se necessária a subjetivação dessa operação, isto é, cabe ao sujeito transplantado elaborar o luto pelo órgão perdido, bem como subjetivar o órgão recebido, passando a percebê-lo como seu. Todo esse processo de recriação da autoimagem reflete na identidade do receptor.

No caso de Paul, percebemos que a assimilação do órgão não ocorre de forma satisfatória, uma vez que ele não vê o órgão transplantado como parte constituinte do seu corpo. Pelo contrário, após descobrir a origem do coração transplantado, Michael é presença constante em sua vida, uma vez que Paul sente que tem uma dívida com ele e procura ajudar Cristina de várias formas. 

O coração, além do órgão físico, é símbolo das vivências emocionais e subjetivas de uma pessoa. Sendo assim, em casos de transplante, para preservar a subjetividade e singularidade do paciente, é de extrema importância a manutenção do anonimato do doador. Perceber o órgão transplantado como próprio impele o receptor a sair da posição de eterno refém do seu doador. Paul não conseguiu realizar tal elaboração, o que culmina em sérias consequências à sua saúde.

No filme podemos notar que, após descobrir a identidade do seu doador e as circunstâncias da sua morte, Paul começa a sentir os sintomas de rejeição do seu corpo ao órgão. Tal fato é explicitado na cena em que o detetive entrega a Paul um jornal que relata o acidente de Michael e no mesmo momento ele sente-se mal, experimentando pela primeira vez os sintomas de rejeição. 


Essa reação também fica clara na sequência onde ele entra na casa de Cristina e vê as fotos do casal, sentido um mal-estar imediatamente.


Paul está carregado de sentimentos de culpa e sente-se em dívida com a família de Cristina, de modo que é difícil para ele não atender a qualquer demanda desta. Assim, ele estreita cada vez mais a sua relação com Cristina e armam um plano para assassinar Jack, como meio de conseguirem vingança. Mas, ao tentar matá-lo, num raro momento de encontro consigo mesmo, Paul hesita, o que provoca um confronto físico e, no meio da confusão, ele dá um tiro em “seu próprio” coração – entre aspas porque o personagem não se apropriou realmente deste órgão. 


Podemos interpretar o tiro no coração como uma tentativa de matar Michel dentro dele, como a forma que Paul arranjou para acabar com a confusão identitária que ele vivia depois do transplante. Do mesmo modo, podemos ver a rejeição ao órgão como uma tentativa do corpo de Paul para impedir a desestabilizadora entrada de sentimentos estrangeiros e, assim, conter o esvaziamento da sua subjetividade.

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