domingo, 19 de maio de 2013

Sleep Dealer




Ficha Técnica

Direção e Roteiro – Alex Rivera
Atores principais:
Leonor Varela – Luz Martínez
Luís Fernando Peña – Memo Cruz
Tempo -  1h28min

Em um futuro impreciso, as conexões eletrônicas já avançaram o suficiente para permitir a contratação de trabalhadores em outros países, sem que seja necessário o seu deslocamento. As máquinas são controladas a distância. É assim que os Estados Unidos resolvem ao mesmo tempo os problemas da escassez de mão de obras para serviços pesados ou menos qualificados e de migração. Os mexicanos não precisam cruzar a fronteira, mais vigiada do que nunca, para prestar serviço em solo americano e ganhar em dólar.

Crítica de Julio Sonsol

Neste cenário está Memo, um jovem de família tradicional camponesa mexicana, morando em Oaxaca, uma pequena localidade mexicana ainda não plugada na rede mundial de prestação de serviços remotos. Aqueles que vivem no campo enfrentam a escassez d'água. Os recursos hídricos são caríssimos e controlados por empresas multinacionais que exploram ao seu bel prazer o sistema de distribuição. Preços são majorados do dia para a noite, e a água só podem ser adquiridas em barragens fortemente vigiadas por sistemas de defesa que incluem câmeras e metralhadoras com disparo remoto.

Memo, ao contrário de seus familiares, não está interessado em continuar com a vida arcaica de seus demais parentes e constrói um equipamento para hackear as conexões e entender um pouco mais sobre o que se passa no mundo tecnológico. Sua antena de captação de sinais é apanhada pelo sistema anti-hackers e destruída por uma aeronave controle remoto. Seu pai é morto durante o ataque, que é a controlado por um americano filho de migantes mexicanos, em sua primeira missão.

O filme, por Alex Rivera, diretor novaiorquino filho de um migrante peruano e mãe americana, mergulha em duas culturas, com maior ênfase ao México explorado. Demonstra claramente de como o sistema capitalista se utiliza dos avanços tecnológicos para assegurar maiores lucros ao sistema, ao mesmo tempo em que se livra do problema da migração, que vem se agravando em todo o mundo. O mexicano não precisa mais se lamentar da falta de emprego em seu país, pois através de conexões, instaladas em seu próprio corpo, pode se unir a uma máquina e realizar tarefas em uma construção na Califórnia, como faz Memo, por exemplo. O deslocamento físico não é mais necessário.

O protagonista foi apresentado ao sistema de conexões por Luz, uma escritora que vende as suas memórias para a rede. Mas as vendas só podem se concretizar se estas forem verdadeiras. Não há como escamotear uma realidade. Qualquer tentativa de mentir é descoberta pela máquina a qual conecta-se. O mundo ainda quer verdades cada vez mais escassas em tempo de virtualidade quase absoluta.

Luz começa a “escrever” (não há digitação, é apenas necessário ditar a memória, que logo se transforma em imagem) a história de Memo, que passa a ser bem comprada. A bela e jovem escritora, no entanto, envolve-se emocionalmente com Memo, o que causa um certo constrangimento e leva a um rompimento do casal, já que ele não gostou de saber da venda de suas intimidades.

O mundo de Memo repousa em sua certo equilíbrio, que tem como nota dissonante os ladrões de água. Sem procurar ser doutrinário ou panfletário, Alex Rivera, que também assina o roteiro, nos traz a forma como os grandes trustes pretendem dominar toda as formas de exploração. Da mão de obra aos recursos naturais. Impossível não estabelecer uma ligação com o que se passa no Oriente Médio, onde os Estados Unidos são capazes de convencer a opinião pública mundial da necessidade de invadir um país e matar dezenas ou centenas de milhares de pessoas em nome de um negócio.

Apesar de ter uma linguagem bem diferente da filmografia americana, Alex Rivera não foge dos padrões da escola hollywoodiana quando escolhe os nomes dos personagens, dando pistas de sua personalidade ou destino. Memo é uma clara alusão à venda de memórias, enquanto Luz é quem clareia os passos do protagonista.

Sleep Dealer ganhou o Sundance Festival, Berlim Festival e o Gothan Indepedent Film, em 2008 e o Independent Spirit Award for Best First Feature de 2009. Não sei se é possível encontrar esse filme em locadora, mas o bom e velho torrent dá conta do recado, com legenda. Recomendo.

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